A despedida de um satélite!

Lançado há dois anos e meio, o Cbers-2B (lê-se “cibers”) contribuiu para a distribuição gratuita de cerca de 270 mil imagens da superfície terrestre para 60 mil usuários de mais de 40 países. Foi também fundamental para o monitoramento do desmate da Amazônia. Como um paciente que está na UTI, o satélite foi reanimado durante um mês pelos técnicos que o construíram. Todas as tentativas, porém, fracassaram. Ele começou a enviar sinais intermitentes indicando falta de energia. Sua morte foi anunciada no dia 16 de abril pelos pesquisadores brasileiros e chineses. Agora o Brasil voltou a depender de outros países para fotografar seu próprio território a partir do espaço. O último contato do 2B com a Terra ocorreu no dia 10 de março, quando o satélite enviou novas imagens captadas do planeta. Hoje, ele jaz a uma altitude de 778 quilômetros. Sua história, mais do que uma reunião de dados e estatísticas sobre uma geringonça que observava a Terra, revela como o governo brasileiro tem tratado a questão espacial nos últimos anos e os desafios a serem superados.

Às onze horas da noite (pelo horário de Brasília) de 19 de setembro de 2007, um foguete levando o satélite Cbers-2B decolava da base de lançamento de Taiyuan, na província de Shanxin, na China. A uma temperatura de aproximadamente 15 graus Celsius, céu claro e sem nuvens, o artefato se separou com sucesso do corpo principal do foguete. Era o terceiro lançamento de uma parceria entre os governos chinês e brasileiro que já havia colocado no espaço o Cbers-1, em 1999, e o Cbers-2, em 2003.

Resultado de um acordo firmado em 1988 pelo então presidente José Sarney com a China, o projeto Cbers (Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres, na sigla em inglês) nasceu com o objetivo de agregar os recursos financeiros dos dois países para estabelecer um sistema completo de observação da Terra e compatível com as necessidades de cada nação. Assim, ele divide os custos de uma operação que o Brasil não conseguiria bancar sozinho e conta com o know how chinês na construção de satélites e foguetes lançadores. Na China, o projeto é tocado pela Cast (Academia Chinesa de Tecnologia Espacial) e, no Brasil, pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), que pertence ao Ministério da Ciência e Tecnologia.

O acordo entre chineses e brasileiros foi renovado em 2002 e estabeleceu a construção dos satélites Cbers-3 e 4. Dessa vez, a divisão dos investimentos ficou em 50% para cada país – com os Cbers-1 e 2, o Brasil só entrou com 30% dos recursos. A previsão era que o Cbers-3 fosse lançado em 2009, mas sua construção atrasou. Como o 2 estava com os dias contados, decidiu-se lançar o 2B. Originalmente, ele foi projetado como uma cópia-teste do Cbers-2, pois num projeto de satélite sempre são construídos dois artefatos: um para ser testado e outro para ser lançado. Diante da urgência de colocar um novo equipamento em órbita, a réplica saiu do baú. A principal diferença do 2B em relação ao 2 se deu na substituição de uma das câmeras usadas no projeto por outra de resolução maior. Para o Brasil, os Cbers-1 e 2 custaram US$ 136 milhões; o 2B, US$ 20 milhões; e o 3 e o 4 sairão por US$ 150 milhões.

Antes do Cbers, o Brasil dependia exclusivamente das imagens de satélites estrangeiros. Com a morte do 2B, essa dependência voltou a existir. O lançamento do Cbers-3 ficou travado, principalmente, devido a restrições impostas pelo governo dos Estados Unidos para a compra de equipamentos e sensores usados no projeto. As barreiras à venda desses componentes acontecem porque o governo americano teme que a China faça uma aplicação militar do programa Cbers.

Quando um satélite deixa de funcionar e não há outro para substituí-lo, o Brasil se torna refém da compra de imagens geradas por outros países. Atualmente, o vazio deixado pelo 2B está sendo compensado pelo uso dos satélites americanos Terra/Modis e Landsat-5 e pelo indiano Resourcesat. O problema é que no caso de uma guerra a distribuição de imagens pode ser fechada pelo controlador do satélite e monitorar, por exemplo, áreas de desmatamento na Amazônia deixa de ser possível.

Carlos Rodrigues, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), lembra como não ter autossuficiência na área espacial é arriscado. Ele conta que na década de 1980, durante a Guerra das Malvinas, os Estados Unidos pararam de repassar imagens do satélite Goes para a América do Sul. Em virtude disso, toda a região ficou sem informações sobre nebulosidade e condições climáticas. “Fomos prejudicados”, diz. “E não tinha nada que pudéssemos fazer.” Com o intuito de evitar a repetição de uma situação semelhante, Rodrigues sugere o investimento cada vez maior em recursos humanos na área espacial. “Só seremos independentes quando os componentes eletrônicos usados nos satélites que nos abastecem forem produzidos em nosso território”, afirma. “Não temos uma indústria forte nessa área por causa de decisões tomadas no passado. Precisamos tirar o atraso tecnológico, o que não acontecerá de um dia para o outro.”

Ricardo Cartaxo, coordenador do projeto Cbers, aponta a questão dos recursos humanos como um dos grandes desafios a serem superados pelo Brasil. “Temos sofrido muito com a questão”, afirma. “O time do Inpe está ficando velho e a substituição, renovação e transmissão do conhecimento estão sendo prejudicados.” Segundo ele, uma das metas do instituto é investir mais nos jovens talentos. “Observamos no trabalho com os chineses que, além de serem muito mais numerosos do que a gente, há uma renovação constante dos quadros deles. A China já está trabalhando com garotos.” Ele afirma, no entanto, que nos últimos anos o país avançou muito na área por meio dos crescentes investimentos feitos pelo governo federal. O orçamento anual do Inpe está na casa dos R$ 200 milhões, sendo que R$ 70 milhões são destinados para o projeto Cbers.

Apesar dessa mudança de comportamento, o Brasil deveria ser mais agressivo em seu programa espacial. Essa é a opinião do engenheiro José Carlos Epiphanio, gerente do segmento de aplicações do projeto Cbers. De acordo com ele, um país da dimensão do Brasil, com a biodiversidade que possui e com a extensão de sua cobertura agrícola deveria ter sempre pelo menos um satélite como o 2B em órbita. Para isso se tornar realidade, seria preciso a criação de um cronograma de lançamento de satélites a cada dois anos, tempo médio de vida útil de um artefato de observação da superfície terrestre, o que não existe hoje. “O orçamento de R$ 200 milhões é muito pouco. Embora ele tenha aumentado, não poderíamos ser tão humildes”, afirma. “Se não fosse a cooperação com a China, estaríamos no pior dos mundos, porque nunca teríamos um satélite de imageamento.” Epiphanio diz ainda que a parceria com os chineses é fundamental pois os governos se forçam a manter o programa em andamento. “Mesmo que haja um aperto financeiro em um certo momento, você não pode quebrá-lo porque é um acordo intergovernamental”, afirma.

O Cbers-3 deve ser lançado no segundo semestre de 2011. Até lá, haverá um vácuo que, mesmo preenchido por imagens de satélites estrangeiros, quebra a rotina de milhares de usuários que estavam habituados a consultar e baixar gratuitamente as imagens geradas pelo programa. A iniciativa, implementada pelo Brasil desde 2004, fez com que Estados Unidos e Europa adotassem política semelhante. Nos últimos anos, as imagens fornecidas serviram para avaliar a degradação ambiental, desmatamentos, áreas agrícolas e adensamento urbano por diversas instituições de ensino nacionais e internacionais – mais de um milhão de imagens já foram disponibilizadas. Elas foram também fundamentais para o sucesso dos programas Prodes e Deter, que acompanham o desmatamento da Amazônia.

Segundo o Inpe, entre os usuários do catálogo Cbers há escolas técnicas que recorrem às imagens como material didático, cooperativas agrícolas que avaliam áreas de cultivo por meio do catálogo de imagens, procuradores públicos ambientais que obtêm provas de crimes ecológicos pelas séries históricas dos registros, assim como empresas que desenvolvem produtos baseados nas informações do Cbers. No XIV Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto, que ocorreu em Natal (RN) no ano passado, 162 dos 1.014 artigos científicos apresentados estavam vinculados a estudos baseados em dados obtidos pelos satélites do programa sino-brasileiro.

Uma pesquisa realizada em 2007 pelo Inpe mostrou que o projeto Cbers, responsável por mais de 70% das imagens distribuídas pelo instituto, foi decisivo para disseminar o uso do sensoriamento remoto orbital. Dos 3.470 usuários que responderam ao questionário formulado, 1.100 afirmaram ter obtido trabalho por causa da disponibilidade das imagens. Entre os principais resultados, destacam-se os retornos econômicos trazidos, como uma economia estimada em mais de R$ 120 milhões pelas instituições cadastradas, a geração de mais de mil empregos e uma declaração de aumento de faturamento das empresas em mais de R$ 27 milhões.

Além de contribuir para a realização de trabalhos acadêmicos, em 2009, durante visita do presidente Lula à China, foram assinados memorandos para a recepção do satélite Cbers nas estações de Ilhas Canárias, África do Sul e Egito. “A ideia é que possamos ajudar a compor uma rede de estações de recepção de imagens para cobrir todo o continente africano”, diz Cartaxo. “O investimento que esses países fazem geralmente é pequeno. Apenas fornecemos um software e ajudamos em sua instalação para que esses países recebam o Cbers.”

O Olho do Homem!

Acredita-se que existam quatro mil satélites orbitando a Terra. Eles são de diferentes tipos e atendem a finalidades distintas: podem ser de comunicação, observação, para uso militar ou para pesquisa espacial. O primeiro satélite artificial feito pelo homem e colocado em órbita foi o Sputinik 1, em 1957. Era um satélite russo que somente emitia sons em determinadas frequências, captados por rádio-receptores na Terra. No contexto da Guerra Fria, isso servia apenas para provar que ele estava lá. Cerca de três meses depois, os americanos lançavam o Explorer 1. Mais útil, o satélite foi responsável pela descoberta do Cinturão de Van Allen, um cinturão magnético que protege a Terra da radiação solar. A largada para a revolução espacial estava dada.

Satélites como o Cbers 2-B fazem parte de uma tradição que começou com o lançamento do primeiro Landsat-1, inicialmente chamado ERTS (Satélite Tecnológico de Recursos Terrestres), em 1972. A partir dele, surgiram novas oportunidades de observar a Terra e de investigar os fenômenos e recursos terrestres usando imagens coletadas em vários comprimentos de ondas, resoluções espaciais e frequências temporais.

Um satélite permanece em órbita devido à aceleração da gravidade da Terra e à velocidade em que ele se desloca no espaço. Essa velocidade depende da altitude da sua órbita. Assim, a velocidade de um satélite artificial em uma órbita a 800 quilômetros de altitude da superfície terrestre é de cerca de 26 mil quilômetros por hora. O tipo de órbita na qual ele é colocado é definido em função da sua inclinação e do seu período de revolução, ou seja, do tempo de um giro completo em torno da Terra, e que está relacionado com a sua altitude.

A órbita do 2B era polar (paralela ao eixo da Terra), o que permitia sua passagem sobre toda a Terra de forma sincronizada com o movimento do planeta em torno do Sol. Essa órbita também é chamada de hélio-síncrona, pois cruza o Equador sempre na mesma hora local – no caso do 2B, às 10h30. Esse tipo de artefato é composto por três grandes partes: uma plataforma, que contém todos os equipamentos para o funcionamento do satélite; o painel solar, para o suprimento de sua energia; e a carga útil (antenas, sensores e transmissores). Ele é equipado com câmeras de alta resolução para fotografar a Terra. O principal avanço do Cbers-3 estará nessa parte.

Ricardo Cartaxo diz que o Cbers-2B apresentou uma falha no seu controle de atitude, que faz o satélite ficar olhando para a Terra. “Imagine a Terra e alguma coisa dando voltas em torno dela. Essa coisa é o satélite que precisa olhar para o centro do planeta”, explica. “Caso contrário, ele ficaria olhando para um ponto fixo no espaço. Isso é o controle de atitude: ele faz com que o satélite olhe para o lugar que a gente quer.” Como esse controle foi perdido, o satélite deixou de apontar para o lugar correto e os painéis solares, responsáveis pela produção da energia elétrica que o abastecia, pararam de receber os raios do Sol da maneira ideal. “Quando isso acontece, ele tem menos energia e suas funções param de ser executadas. Assim, os transmissores e receptores a bordo não funcionaram mais.” Foi dessa maneira que a vida útil do 2B chegou ao fim.

Neste momento, o 2B permanece em órbita. Como não agrega nenhuma tecnologia capaz de trazê-lo de volta para a atmosfera para se desintegrar, ficará por lá. Virou lixo espacial. No ano que vem, deve ter a companhia do Cbers-3 e, em 2014, do 4. Também como o 2B, eles já nascem com os dias contados. A expectativa é que vivam um pouco mais: cerca de quatro anos. Sua missão: ser os olhos do homem no espaço. Quem sabe até sua morte seja reconhecido que, quando um desses olhos se fecham, é necessário que um novo satélite já esteja lá para prosseguir a missão.

Via: G1

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